Está completando uma semana que um grupo de alunos está acampado em frente ao Centro de Letras, Comunicação e Artes (antiga Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Jacarezinho), na esquina da Padre Mello com a Avenida Brasil. Eles protestam contra a diretoria da Faculdade, que segundo eles, não fornece infra-estrutura adequada para que possam estudar. Os manifestantes contam que em 2006, a Faculdade possuía uma Casa do Estudante que abrigava doze acadêmicos vindos de outras cidades e que não tinham condições financeiras de alugar um apartamento ou quitinete. A divergência de idéias ocorreu quando a direção da Faculdade solicitou que os alunos saíssem da casa, para que esta fosse reformada. O imóvel foi reformado e entregue ao Diretório Acadêmico (D.A.) que, segundo este grupo de estudantes intitulado Movimento Estudantil Independente, não a abriu mais. A situação ficou mais delicada entre as duas partes quando a direção recebeu uma verba para a ampliação do estacionamento, mas ainda não conseguiu obter recursos para a construção da Casa do Estudante. O estacionamento foi ampliado com esta verba na área doada pela Prefeitura Municipal de Jacarezinho para estes fins: estacionamento e Casa do Estudante.
Os estudantes baseiam-se na Lei Nº. 1738, de 27 de Novembro de 2006 para sua argumentação. A lei, aprovada pela Câmara Municipal e sancionada pela Prefeitura, autoriza a doação de duas áreas de terra (uma de 1.337m² e outra de 1.650m²) para a Faculdade de Filosofia que deveriam ser destinadas para a construção da Casa do Estudante e ampliação do estacionamento próprio. A Lei também esclarece que a FAFIJA não poderá mudar a finalidade para a qual foram destinadas as áreas doadas.
O vice-diretor da Faculdade, Juarez Soares conta que a decisão de usar o terreno para fazer o estacionamento de ônibus é pela segurança dos próprios alunos. “Fica muito cheio ali perto dos bares e é muito perigoso os ônibus dando ré ou parados no meio da rua aqui na frente da faculdade”. Juarez comenta também que agora a Faculdade de Filosofia pertence à Universidade do Norte do Paraná (UENP) e a ela compete a construção da Casa do Estudante. “É um processo demorado. Geralmente você briga por uma coisa que não vai usar. Eu briguei muito pela Casa do Estudante na UEL e não usufruí, mas quem chegou depois, teve um lugar pra morar. Os alunos tem que solicitar ao órgão competente que representa os estudantes. O Diretório Acadêmico”, conclui.
Um dos manifestantes, Rodney Ricardo Bueno Mecchi Rodrigues, 27, considera indigno ter construído o estacionamento sem ao mínimo ter havido um debate com os acadêmicos. “Eu morei no último ano da Casa do Estudante. A relação era apenas política, não havia nenhum apoio estudantil. Agora, o imóvel, que pertence ao Diretório, fica o dia todo fechado”, conta, explicando que há um racha entre os alunos que apóiam e que criticam a diretoria. “Eu não tenho lugar pra onde ir. Queremos trabalhar. Semana passada, fomos lutar pelo nosso direito de estagiar e ganhar dinheiro para sobreviver, mas uma lei burocratizada por enquanto está impedindo”, explica. Rodney finaliza dizendo que o protesto tem fins pacíficos e intenção de publicizar e conscientizar a população para a violação dos direitos estudantis.O acadêmico Deived Oliveira, 26, veio de Ipaussu para estudar Letras/Inglês e denuncia o que ele chama de máfia dos imóveis de Jacarezinho. “Fomos despejados por causa de 15 dias de atraso no aluguel. Saímos, juntamos dinheiro e pagamos o que devíamos, mas, mesmo assim o proprietário veio cobrar uma dívida nova e nos ameaçar. Não temos condições de pagar advogado e ficamos na mão das imobiliárias e dos locadores de casas. Os alunos ficam ao deus dará porque a Faculdade não se preocupa em criar condições decentes para o estudante morar”, desabafa.
Estudantes e diretoria divergem no discurso. O grupo independente estudantil diz que a área ampliada do estacionamento abrange a destinada para a construção da moradia estudantil. A diretoria alega que a verba de cerca de R$150 mil recebida do Governo do Estado deveria, obrigatoriamente ser usada para o estacionamento, já que estava previsto na cessão dos recursos e a Faculdade não teria autonomia para modificar o destino do dinheiro. A direção complementa que a área prevista na doação municipal para a construção da moradia está intacta, apenas esperando abrir a “chamada” de recursos para esta obra.
A integrante do Departamento Jurídico da Faculdade, Francine Franini explicou que o estacionamento de ônibus nem é considerado pela planta do projeto área construída. “Foram só as pequenas reformas, construção de canteiros e obras mínimas para adaptar o terreno para os ônibus serem guardados, já que no ano passado uma aluna de pedagogia sofreu acidente sério na Avenida Brasil, onde os ônibus ficavam, ameaçando a segurança de todos”. Com a planta em mãos, Francine forneceu as medidas do projeto. “O terreno previsto para a Casa do Estudante é de 635m². A construção do canteiro tomou 310m², a Praça/Calçada, 1370m² e o resto que será usado pelos ônibus, 1267m².
A diretora do Centro de Letras, Comunicação e Artes (FAFIJA) Ilca Maria Setti, muito criticada pelo movimento independente, contou que em seu plano de ação à frente da Faculdade, está como prioridade a construção da Casa do Estudante. “Conheço bem a realidade dos estudantes e há mais de quatro anos, eu venho lutando por isso. A casa que eles reclamam ter sido doada para o Diretório Acadêmico tinha rachaduras verticais de fora a fora da parede. Temos o laudo do Engenheiro Civil que condenou o imóvel. Se eu deixo os meninos morando lá, naquela condição precária e cai uma parede, acontece algo, eu seria a responsável. O estudante tem que morar com dignidade para que ele possa render na aula. Nosso projeto de construção previa dois pavimentos, sala de estudos e sala de TV”, contextualiza Ilca, que procura explicar os trâmites do recebimento de verbas de uma faculdade. “Eu já entreguei ofício para o Ministro Paulo Bernardo, em todas as visitas que faço à Curitiba, solicito ao diretor-geral, mas até agora não recebemos resposta”, conta. Francine, do Departamento Jurídico, explica que a faculdade não tem autonomia nem recursos para construir uma moradia sem apoio. “O dinheiro veio fixo para o Estacionamento. Ficamos engessados porque o Tribunal de Contas não permite que usemos nem parte do recurso para outro fim que não seja o ordenado”, explica. Ilca Maria Setti finaliza dizendo que uma instituição só cresce quando há divergências de ideias. “O Pedro (D.A.) e o Rodney sempre lutaram muito pelos alunos. Uma manifestação como esta é muito importante para chamar a atenção para essa causa, que é de todos”, conclui.
O acadêmico Pedro Orlandini, integrante do Diretório Acadêmico contou que após uma reunião na tarde de segunda com o Movimento Estudantil Independente e na manhã de ontem com os advogados da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), resolveram apoiar o Movimento Independente. “A briga do pessoal é que aquela praça não deveria existir. Conversamos com os advogados da UENP para tentar um acordo com a diretoria. Precisamos que a direção assine um termo de compromisso para construir uma Casa do Estudante e para alugar uma casa enquanto isso não ocorre. Senão entraremos com uma ação para embargar a obra. A manifestação dos estudantes é legítima”, explica.
O Movimento Estudantil Independente busca o apoio da comunidade. Reuniu-se na sexta-feira passada com a Prefeita Tina Toneti e na segunda com os vereadores Wandinho e Edílson da Luz.